
Uma casa inteira para vender
Vou me mudar de país, e quase tudo o que está na minha casa precisa ir embora antes de mim, do sofá e da geladeira até a cama, a prateleira e a cafeteira. Eu imaginava o que vinha pela frente, com dezenas de anúncios e centenas de mensagens em que a pessoa pergunta se ainda tem, pede para fazer por menos e marca de buscar no sábado, e no sábado ninguém aparece. Do jeito que ia, eu passaria as minhas últimas semanas na cidade negociando sofá pelo WhatsApp.
Foi quando pensei que o preço podia se resolver sozinho se eu publicasse tudo num site em que quem quiser dá lance e quem der mais leva, sem pechincha e sem conversa, só com a mensagem final para combinar a retirada. Como boa parte dos compradores fala espanhol e paga em pesos argentinos, o nome veio daí, porque subasta é “leilão” em espanhol.

O ponto de partida
O Subasta foi inspirado num sistema que o Gabriel Teixeira fez com a mesma proposta, e os problemas que o dele teve viraram requisitos do meu desde o primeiro dia:
- Avisos. Muita gente sentiu falta de saber quando alguém passava à frente, então aqui quem confirma o e-mail recebe o aviso de lance superado e os lembretes da reta final, 48, 24, 2 e 1 hora antes do fim.
- Retirada agendada. No sistema dele, o agendamento entrou no meio do caminho, e no Subasta ele já nasceu no fluxo, com quem arremata escolhendo um horário livre e recebendo um convite de agenda por e-mail.
A parte de gestão é toda minha, desenhada a partir dos problemas que vi no dele, e reúne a lógica do preço, o conector MCP que liga o Painel ao Claude para criar e editar os itens em lote, a skill que conduz esse fluxo e um histórico com desfazer para tudo o que a IA mexe. Em cima disso entrou o meu olhar de diretor de produto, depois de trabalhar em vários produtos, que é o de cuidar da experiência dos dois lados, de quem dá o lance e de quem opera o leilão.
Primeiro o papel, depois a tela
Como não sou desenvolvedor, construí o Subasta inteiro conversando com o Claude, e o que fez isso dar certo foi não começar pelo código. Antes de qualquer tela, passei 45 minutos escrevendo o produto com o Atlas, o método de documentação que venho testando no trabalho e que segue sempre a mesma ordem:
- Constituição. É onde fica o que o produto é e as regras que nada pode quebrar, que no Subasta incluíam “eu converso o mínimo” e “dinheiro não passa pelo site”, e é também onde se fixa o vocabulário, em que é “lance” e nunca “oferta”, “retirada” e nunca “entrega”.
- Objetos. São as coisas que existem no sistema (item, lance, comprador, retirada), cada uma com os seus estados e as suas regras.
- Fluxos. São as jornadas, como dar um lance ou agendar a retirada, e elas só apontam para as regras dos objetos.
Toda pergunta sem resposta virou uma pendência até eu decidir, e nada entrou por chute, então quando a IA foi construir ela já sabia o que fazer em cada caso, até no de dois lances no mesmo segundo.
Comecei às 15h43, o Atlas fechou às 16h26 e às 21h o site estava pronto, construído em cinco etapas que terminavam sempre com algo funcionando. Os ajustes foram até a madrugada, e no total foram umas 12 horas.
Nada pode travar o primeiro lance
O momento mais importante de um leilão é o primeiro lance, porque é quando a pessoa decide entrar no jogo, e por isso tirei tudo o que atrapalhava esse momento.
Para dar o primeiro lance basta nome, e-mail e WhatsApp, sem senha e sem código. Na primeira versão eu pedia para confirmar o e-mail antes do lance, por segurança, e logo percebi o que isso fazia, porque a pessoa estava animada, a um toque de dar o lance, e eu a mandava procurar um código no e-mail.
Então inverti a lógica e transformei a confirmação do e-mail numa troca, em que logo depois do lance o site pergunta se a pessoa quer saber quando alguém passar à frente. Quem confirma ganha os avisos por e-mail e destrava as abas de Meus lances, Retiradas e Notificações, que até ali aparecem com um cadeado, e quem não quiser segue dando lance normalmente, porque eu queria que o e-mail parecesse uma recompensa, e não uma barreira.

Quem volta depois, em outro aparelho, entra só com o e-mail e um código, sem senha para lembrar.

O resto do site segue a mesma ideia de tirar o atrito:
- O lance vem pronto. O campo já mostra o próximo valor válido, sempre redondo, de 5 em 5 reais, e basta tocar.
- Cada um na sua moeda. Quem pensa em pesos dá lance em pesos, e o equivalente em reais aparece ao lado.
- Compartilhar é copiar. O botão só copia o link, que no WhatsApp vira uma prévia com foto, lance atual e “Dar lance”.
- O final tem pressa. Nas últimas 48 horas uma faixa no topo muda de cor, e na última hora ela vira contagem regressiva.
- A retirada se marca sozinha. Quem arremata escolhe o dia e a hora no próprio site, e o convite cai na agenda dos dois.

O Painel: um leilão que eu opero sozinho
Do lado de quem compra a regra era tirar atrito, e do meu lado era não virar um segundo emprego. Eu ia operar tudo sozinho, com dezenas de itens e a mudança batendo na porta, então cada tela do Painel foi pensada para eu resolver as coisas em poucos cliques e ir embora.
Cadastrar dezenas de itens à mão seria o primeiro gargalo, e por isso o Painel tem um conector com o Claude, em que eu descrevo as coisas numa conversa, do jeito que falo (“sofá retrátil cinza, uns cinco anos, começa em 1.200”), e ele cria os rascunhos com título, descrição, categoria e a versão em espanhol. Depois eu só subo as fotos, que o próprio navegador comprime.


Quando um item encerra, ele vai para Vendas, que funciona como uma lista do que falta fazer, com quem arrematou, se já agendou a retirada e um botão que abre o WhatsApp com a mensagem pronta, no idioma da pessoa. Se ela some, eu passo o item para o próximo maior lance com um toque.

Como a IA também mexe no leilão, eu precisava saber quem fez o quê, e por isso o Histórico registra cada mudança com a origem (eu no Painel, o Claude no chat ou o próprio sistema) e um botão de desfazer sempre que dá para voltar atrás sem prejudicar algum comprador.

E tudo o que vale para o leilão inteiro, como a data de encerramento, os horários de retirada, os dias fechados e a taxa entre o real e o peso, fica numa tela só, os Ajustes.

O que o uso real mudou
Mesmo com tudo especificado, o produto mudou quando gente de verdade começou a usar. A integração com o Google Agenda virou um convite por e-mail, que resolve o mesmo problema sem pedir acesso à conta de ninguém, e os horários de retirada, que eu ia abrir um por um, viraram um horário padrão, com os dias fechados marcados à parte. O resto quem achou foram os amigos que testaram no celular, com o login que caía ao fechar o Safari e o campo que dava zoom ao ser tocado.
O que ficou para mim foi que escrever código deixou de ser a parte difícil, porque o tempo de verdade foi para os 45 minutos pensando nas regras e para as horas vendo gente usar.