VoltarNota · Atlas

Transformei uma entrega em processo

O que é o Atlas, o método que uso para construir produtos com IA, por que ele funciona e por que rende muito mais quando o contexto inteiro da empresa está escrito para a IA ler.

Tipo
Nota
Série
Atlas
Publicado em
out de 2026
Leitura
5 min de leitura
Temas
IA, Produto
Diagrama do Atlas, em inglês, com as seis etapas (Constituição, Objetos, Fluxos, Design, Desenvolvimento e Teste) apoiadas numa fonte de verdade versionada

Muita gente que começa a construir produto com IA faz o mesmo caminho, pedindo uma tela, olhando o resultado e pedindo ajustes até ficar bom. Eu também fiz muito isso, e com o tempo entendi que a tela é a parte que a IA faz melhor, e que o que dava errado estava antes dela, nas decisões que ninguém tinha tomado. Hoje o meu trabalho começa por essas decisões, escritas num documento que eu chamo de Atlas, e nesta nota explico o que ele é para quem nunca ouviu falar.

O problema que o Atlas resolve

Todo produto digital é feito de muitas pequenas decisões, como o que acontece quando alguém erra a senha, quem pode apagar um cadastro ou o que o sistema faz quando duas pessoas mexem na mesma coisa ao mesmo tempo. Num projeto comum, essas decisões ficam espalhadas, uma numa reunião, outra numa mensagem e outra só na cabeça de quem conversou com o cliente, e cada pessoa do time imagina o produto de um jeito diferente.

O resultado aparece tarde, quando quem desenhou esperava uma coisa, quem programou entregou outra e a diferença só surge no teste, que é a hora em que consertar já custa caro. Com a IA no meio isso piora, porque ela preenche sozinha cada decisão que faltou, sem avisar, e entrega algo que parece pronto e quebra no primeiro uso.

O que é o Atlas

O Atlas é um documento único que descreve o produto inteiro, em linguagem simples, antes de qualquer tela existir. A melhor comparação que conheço é a planta de uma casa, porque ninguém chama o pedreiro e pede “uma casa bonita” sem antes ter no papel quantos cômodos ela tem, o que fica em cada um, por onde as pessoas passam e qual parede não pode sair do lugar.

Ele é escrito sempre na mesma ordem. Primeiro vem a Constituição, com o que o produto é, as palavras que ele usa e as regras que nada pode quebrar. Depois vêm os objetos, que são as coisas que existem dentro do sistema, cada uma com os estados por que passa e com o que cada pessoa pode fazer com ela. Por último vêm os fluxos, que são os caminhos das pessoas pelo produto, e que não repetem as regras, só apontam para elas, porque uma regra copiada em dois lugares acaba ficando diferente nos dois.

Exemplo de como um Atlas é escrito, com o Subasta: a Constituição com as regras da casa, os objetos Item e Lance com os seus estados e regras, e os fluxos Dar um lance e Agendar a retirada, que apontam para as regras dos objetos

Nada entra no Atlas por chute, então toda pergunta sem resposta fica marcada como pendente, com o nome de quem vai decidir. Quando o documento fecha, quem desenha parte dele para fazer as telas, quem desenvolve parte dele para construir, e qualquer mudança que aparecer no caminho volta para o mesmo lugar, em vez de virar uma conversa que ninguém registrou.

Por que funciona tão bem com IA

A IA constrói rápido qualquer coisa que você pedir, inclusive a coisa errada, então o que ela precisa de você são as decisões. Quando chego com o produto escrito, ela não tem o que inventar, porque a resposta para cada situação já está lá, e foi assim que no Subasta eu passei 45 minutos escrevendo o Atlas e a IA construiu o resto em poucas horas.

O Atlas também deixa as contradições à vista. A especificação e o protótipo ficam lado a lado, e quando os dois discordam a diferença fica anotada até alguém decidir, em vez de cada pessoa, ou cada IA, resolver do seu jeito sem contar para ninguém.

Quando a empresa inteira vira contexto

O Atlas sozinho já ajuda bastante, mas ele rende muito mais desde que passou a fazer parte de um ambiente maior. Nas minhas duas empresas, a Oroz e a Sincera, cada uma com o seu, a gente vem montando o que chamamos de OS da empresa, que é o contexto inteiro do negócio escrito em documentos e em skills. As skills são instruções que dizem para a IA o que fazer, como fazer e quais passos seguir para chegar a um resultado que eu já testei e sei que funciona.

Na prática, isso muda o tipo de pedido que eu faço. Em vez de explicar o produto de novo a cada conversa, eu peço para a IA seguir o processo, e ela já sabe que precisa ler o Atlas antes de mexer em qualquer coisa, como documentar um fluxo novo, como transformar esse fluxo em telas e como registrar o que mudou, porque cada um desses passos virou uma skill depois de dar certo pelo menos uma vez. Foi assim que transformei uma entrega em um processo, e o Atlas é a parte desse processo que cuida do produto.

Do papel ao teste

O passo mais recente que entrou foi o teste, e foi aí que o Atlas deixou de ser só um documento de planejamento. O teste técnico parte do próprio Atlas e tenta quebrar o sistema regra por regra, e cada problema encontrado vira um registro com print, organizado em levas para quem desenvolve. Depois vem o teste de usabilidade, com missões tiradas dos fluxos, para ver se uma pessoa de verdade entende o produto sem ajuda, e quando o problema é de texto a própria skill já sugere uma frase melhor.

Como os dois testes leem o mesmo Atlas que guiou o design e o desenvolvimento, a pergunta deixa de ser se o produto funciona e passa a ser se ele faz o que a gente decidiu que ia fazer, o que dá para responder com sim ou não.

Onde eu controlo menos

Na Oroz e na Sincera, eu ajudo a desenhar o ambiente inteiro, então é natural que o Atlas se encaixe nele. O teste mais difícil está na CodingIT, onde sou Head de Produto e UX e controlo bem menos do que existe em volta, e é lá que estou implementando o Atlas agora, para descobrir o quanto dele se sustenta quando não fui eu quem montou o resto.

Ainda não sei essa resposta, e é por isso que esta nota faz parte de uma série. O que já sei é que o Atlas deixou de ser um documento que escrevo antes de construir e virou a forma concreta de um processo que está crescendo nas duas empresas, e que cada projeto novo deixa esse processo um pouco melhor do que o anterior.

Escrito por Matheus Sá. Discorda ou quer complementar? Me escreve.